Muitos profissionais vivem diariamente um dilema: permanecer em silêncio diante de um ambiente de trabalho tóxico para evitar conflitos, mas carregar dentro de si o peso de um sofrimento calado. Esse silêncio, muitas vezes, não é escolha livre, mas uma forma de sobrevivência psíquica. A questão é: até que ponto esse “não falar” protege e até que ponto adoece?
O silêncio como defesa psíquica
Na Psicanálise, o silêncio pode assumir diferentes significados. Ele pode ser um recurso de autopreservação, quando a fala ameaça trazer mais dor do que alívio. Em um ambiente de trabalho marcado por hostilidade, fofocas, humilhações veladas ou cobranças excessivas, calar-se pode parecer a única saída para não se expor ainda mais.
Esse silêncio funciona como uma defesa psíquica: o sujeito tenta se proteger da agressividade externa, poupando-se do desgaste de enfrentamentos diretos. Contudo, o que não encontra espaço de expressão no exterior tende a retornar no interior, transformando-se em sintomas como ansiedade, angústia, insônia e até doenças psicossomáticas.
Sofrer calado: quando o corpo fala o que a boca não diz
Um ambiente tóxico silencia a subjetividade. O trabalhador não se sente ouvido, tampouco reconhecido. Essa falta de espaço para falar e ser escutado gera uma sensação de impotência que fere profundamente a autoestima.
A psicanálise nos mostra que aquilo que não se fala, não desaparece. Ao contrário, retorna de outras formas: dores de cabeça constantes, sensação de exaustão, crises de ansiedade ou mesmo depressão. É o corpo pedindo passagem para o que a fala não ousa revelar.
O medo de falar e o pacto do silêncio
Por que tantas pessoas permanecem em silêncio? O medo da demissão, o receio de represálias, a insegurança diante de um mercado de trabalho competitivo e instável. Assim, forma-se um pacto silencioso: todos sofrem, mas poucos falam.
Esse pacto, porém, não é sem custo. Ele gera isolamento, perda de vitalidade e uma sensação de estar constantemente “andando em ovos”. Com o tempo, o sujeito passa a duvidar de si mesmo, internalizando a ideia de que não tem valor ou de que merece o que vive.
Romper o ciclo: dar voz ao sofrimento
O caminho psicanalítico não é simplesmente incentivar a “explosão da fala” em qualquer circunstância, mas ajudar o sujeito a encontrar um espaço seguro para dizer de si. Muitas vezes, o ambiente de trabalho não será o lugar possível para essa fala. Por isso, buscar escuta qualificada, seja na terapia psicanalítica, seja em grupos de apoio, torna-se fundamental.
A fala, quando acolhida, abre caminhos para a elaboração. O sujeito deixa de carregar sozinho um peso insuportável e começa a reconstruir seu lugar de dignidade e desejo.
O silêncio que adoece, palavra que liberta
Ficar em silêncio em um ambiente de trabalho tóxico pode até proteger momentaneamente, mas o custo psíquico é alto. A verdadeira mudança começa quando se reconhece que calar não elimina o sofrimento, apenas o empurra para dentro.
A psicanálise nos convida a olhar para esse silêncio não como fraqueza, mas como um pedido de escuta. O desafio é transformar o sofrimento calado em palavra, para que a dor deixe de ser um peso solitário e se torne um caminho de transformação.